Lições aprendidas com a polêmica entre Neymar e Dorival Júnior
Sei que a maioria dos leitores vão se perguntar: por que um blog sobre gestão está colocando um artigo no ar relacionado a futebol? Está enganado quem pensa que essa notícia pode ser tratada somente pelo lado esportivo. Pelo contrário, o fato abre margens para discussões em blogs gerenciais (como o Gestão Etc), sobre psicologia, sobre educação. Neste artigo, tratarei da questão sob o ponto de vista empresarial.

Entenda a história
Acordo hoje e acompanho uma enxurrada de notícias sobre a demissão do técnico Dorival Júnior do Santos. O motivo? Uma insubordinação (?) do técnico, que não acatou a decisão da diretoria santista de manter o jogador no jogo contra o Corinthians.
Tudo começou quando, no último meio de semana, Neymar se irritou com a atitude do técnico santista de não autorizá-lo a bater um pênalti para sua equipe. Vale ressaltar que o próprio jogador já havia batido inúmeras penalidades nesta temporada, com um aproveitamento questionável. Com a atitude, o técnico quis preservar o próprio jogador, pois mais um pênalti perdido poderia jogar o atleta contra a torcida, além de prejudicar o próprio clube.
Diante da situação adversa, Neymar se irritou com o técnico, usou palavras de baixo escalão e, consequentemente, viu todo o time santista se voltar contra ele, especificamente contra o seu comportamento.
Após o jogo, Dorival Júnior deu uma entrevista coletiva e frizou que os problemas seriam resolvidos internamente. Admirei sua postura naquele momento, pois sua atitude foi de não expor ainda mais o jogador.
Após o atleta ter ficado de fora do jogo do último fim de semana, li algumas notícias publicadas na imprensa de que o técnico defendia o afastamento de Neymar por quinze dias. Porém, inexplicavelmente, a diretoria do clube se voltou contra o técnico e resolveu bancar a escalação de Neymar no jogo de hoje. Diante da situação, Dorival enfatizou sua intenção de afastar o atleta por alguns dias e, hoje de madrugada, foi divulgada sua demissão, com a justificativa de “excesso de autoridade, quebra de confiança, falta de flexibilidade e por se achar maior que o clube”.
O paralelo com o mundo empresarial
Situações como esta, por incrível que pareça, são muito comuns no meio empresarial. A famosa Geração Y (da qual eu faço parte, por sinal) é conhecida por não ter limites, assim como o próprio Neymar.
Porém, vou focar na questão envolvendo a diretoria do clube e o técnico. O técnico, assim como um gestor, é o comandante do time. É dele a principal responsabilidade por manter a sua equipe motivada, unida e trabalhando e prol de um objetivo comum. A diretoria, como nas empresas, existe para apoiar o gestor em caso de dificuldades, mas nunca para desmenti-lo em público. Por maior talento que Neymar possa ter (e de bola o garoto entende bem), ele precisa entender que é funcionário de uma empresa com regras explícitas e faz parte de um time. Um profissional nunca pode ser colocado em posição mais confortável que outros do mesmo time, pois certamente geraria insatisfação e desunião do grupo.
Defendo a tese que talentos existem e merecem ser tratados como tal. Afinal, o que seria de um time sem um craque; ou de um time sem aquele profissional fora da curva? Por outro lado, sou muito favorável à tese de que a construção de um time vencedor passa por três elementos básicos:
- união do grupo;
- respeito ao líder e às regras da empresa;
- capacidade técnica.
Neymar tem capacidade de sobra. Porém, sua atitude certamente causou impactos na união do time, configurou insubordinação ao comandante e falta de respeito ao clube.
Na minha experiência profissional, já trabalhei com vários estagiários e analistas da Geração Y. Confesso que liderá-los é uma tarefa desafiadora, mas sempre procurei deixar a balança equilibrada: de um lado, os interesses e os anseios do profissional; de outro, os interesses do time e da empresa.
Acredito que o que falou no Santos, mais precisamente na sua diretoria, foi entender que essa balança precisa estar equilibrada. Com a decisão, o clube deixou claro que Neymar tem autonomia para fazer o que bem entender no clube. Já o técnico, na minha visão, sai por cima dessa história. Bancou suas ideias, principalmente com a justificativa de que elas foram pautadas em uma decisão que envolveu várias pessoas do clube. Ou seja, o técnico, antes de tudo, ouviu outras pessoas do time.
Vamos começar uma discussão aqui nesse espaço? Você já vivenciou situações como essa na sua empresa? Como lidou com elas?
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16 comentários
” Fiquei sabendo dessa história do Neymar X Dorival hoje pela manhã. Me parece que quem perde é o Santos cuja diretoria deu uma demonstração de como não se deve gerir recursos.”
Exatamente Darwin. Eu no lugar do técnico teria tomado a mesma atitude e, se possível, teria me demitido antes.
É melhor você sair de cabeça erguida do que continuar num lugar onde não tem o seu time nas mãos.
Grande abraço e conto com as suas participações enriquecedoras mais vezes aqui no blog.
A analogia foi perfeita!
O Neymar é um empregado de uma grande empresa. Tem destaque pelo seu talento mas não pode abusar.
Já a diretoria do Santos deve ficar atenta pois perdeu um grande líder em prol de um empregado que pode em breve “trocar de empresa”.
É triste ver uma situação dessas.
Boa Fabiano!
O Neymar já vem abusando há algum tempo. E você tocou num assunto chave: em breve, ele vai mudar de empresa.
Abraços!
Brilhante análise!
Faltou maturidade para a instituição “Santos FC” de gerenciar os conflitos existentes entre o técnico e o craque da equipe.
É aquela típica situação em que a alta administração resolve implantar algum projeto, mas não dá autonomia ao seu GP (Dorival Jr.) para tomar as melhores decisões.
O Neymar é o tipo de profissional que acha que já conhece de tudo, mas tem muito ainda para aprender.
Vinicius,
Quero deixar claro também que não defendo a total autonomia aos funcionários, principalmente os gestores. A alta direção sabe o que é melhor para a empresa, mas a opinião do líder deve sempre ser respeitada.
Ao meu ver, a decisão dele foi tomada junto com o grupo, enquanto a decisão da direção foi pautada simplesmente pelo exercício de poder.
Grande abraço!
Eu entendi.
Muitas vezes, a alta direção é influenciada pelas desejos dos acionistas que querem lucro imediato (este é um exemplo) e tomam decisões precipitadas e sem embasamento técnico.
Só o que vemos hoje, é que existem gestores altamente qualificados que conhecem mais do negócio do que a própria alta direção.
Acredito (posso estar errado), que o Dorival Jr é um desses gestores, e que o Santos deu um tiro no próprio pé.
Essa história tem um fator importantíssimo que ainda não foi colocado aqui: o Neymar será vendido em breve. Portanto, para o Santos, é muito melhor o Neymar jogando do que o Neymar descontente.
Tá aí um conflito ético. Sacrificaram o líder do grupo por dinheiro.
Primeiramente, se me permite, um comentário acerca de uma expressão utilizada no texto: As palavras usadas pelo Neymar foram de baixo calão; baixo escalão é expressão para a área militar, relacionada a patente.
“O que seria de um time sem um craque?” E eu pergunto: Até onde o Neymar é um craque? Craque é aquele ser individualista que acredita ser ele o detentor de todo o sucesso da equipe? Se for isso que hoje interpretam como craque, lamentável. Craque, para mim, tem que ter talento, claro, é disso que vive o futebol, mas não só. Tem que ter carisma, para atrair a torcida e os patrocínios, pois disso, também, e, principalmente, vivem os clubes. O time é uma marca, o jogador deve representar bem essa marca. E o que o Neymar conseguiu? Transformar a situação em chacota nacional.
O clube do Santos não perdeu apenas um técnico, perdeu realmente um líder. O clube do Santos está vendo seu nome em centenas de piadas pela internet. A equipe, que se identificava com Dorival, de alguma forma será prejudicada, se não tática, mas emocionalmente. E como será a reação dessa equipe frente ao “causador do transtorno” Neymar?
Acredito que os dirigentes agiram sem planejamento. Ação sem planejamento é um passo para o fracsso.
*Há um filme simples, mas do qual gosto muito, que deveria ser passado no clube do Santos: Coach Cartier – Treino para vida. Ajudaria muito a todos que lá permanecem.
Parabéns pela visão.
Olá Nazaré,
Pelo que pesquisei, baixo calão é utilizado quando queremos referenciar palavras de baixo nível. O que realmente é diferente de escalão, utilizado na área militar. O que li no Aurelio é que a palavra calão por si só já representaria algo de baixo nível. Desta forma, teríamos uma redundância na utilização da expressão baixo calão. Não estudei letras e se quiser continuar a discussão, ambos ganharemos!
Vou ver o filme que você recomendou. Fiquei curioso.
Aguardo seu comentário mais vezes aqui no blog!
Rafael Ramos
[...] This post was mentioned on Twitter by Rafael Ramos, Rafael Ramos, Vinícius Santos, Alexandre Paiva, PMP, Rafael Ramos and others. Rafael Ramos said: Já leu o novo artigo no Gestão etc com a polêmica entre Neymar e Dorival Júnior sob o ponto de vista empresarial? http://bit.ly/941tCQ [...]
Boa noite Rafael,
Parabéns pelo espaço aqui disponível.
Sempre que vejo uma situação chegar a um ponto limite, eu sempre me questiono se realmente seria necessário fazer isso.
Nesse caso específico: o afastamento de 1 jogo já não seria suficiente para mostar ao atleta que ele faz parte de um time, que existe hierarquia e que ele deve se sujeitar a tal, como todos os outros profissionais? Se ele é craque, deve ter isso reconhecido no contra-cheque no final do mês, mas no dia a dia deve trabalhar e se esforçar como todos os outros.
Se ele não aprendeu com 1 jogo, então a solução talvez não seja essa para o problema, por que senão serão necessários o que? 15 dias de afastamento? 30 dias? Nunca mais jogar pelo Santos? Vai ver que foi por isso que a diretoria se envolveu. Afinal é patrimônio do clube que tem que estar na vitrine. Cada um defende o seu interesse. Pra diretoria se existe um problema o trabalho do treinador é resolver.
Na vida profissional nem sempre conseguimos fazer as coisas da forma que achamos a melhor, mas aí está um grande dom que devemos desenvolver, que é tentar contornar as situações difícies e achar soluções possíveis. A solução de impor poder nem sempre funciona, pois sempre tem alguém que pode mais. Se ele queria “enquadrar” o Neymar e a diretória falou que ele tinha que jogar, ele deveria ter buscado outras formas de fazer o jogador aprender a lição.
No caso do Dorival é mais fácil, pois ele não precisa do salário na conta no final do mês para pagar a conta do supermercado e comprar fralda pras crianças. E também não ficaria muito tempo desmpregado (Pra mim foi até bom. E realmente torço que ele salve o Atlético/MG da segundona).
Mas pra nós meros mortais, um profissional que fica impondo a sua forma de pensar perante os seus superiores, terá sérios problemas para manter o emprego.
Sem querer me prolongar muito, fico aqui imagiando o que faria o saudoso mestre Telê Santana num caso como esses? Acredito que ele não agiria assim.
E isso não tem a ver com geração XY ou Z. Isso tem a ver com pessoas e amadurecimento. Esse tipo de conflito sempre vai existir.
Um forte abraço,
Glauco
Grande Glauco,
Você tocou na questão por um outro ângulo, onde afirma que se um jogo não adiantou, não será a punição de quinze dias que irá resolver. Neste ponto, concordo. Porém, acho que o técnico deve ter sim sua autonomia, pois ele é quem tem o grupo nas mãos. Provavelmente poucos atletas daquele elenco têm contato constante com a diretoria.
Se formos falar em resulados, o Santos ganhou de 4 x 1 do Cruzeiro com show do Neymar. Sendo assim, a diretoria acertou em sua decisão?
Mas discordo de você quando afirma que não tem a ver com geração Y. Problemas no amadurecimento são comuns nesta geração.
Obrigado pela sua visita e primeiro comentário! Te espero aqui mais vezes.
Apesar de um pouco atrasado na discussão, acho que existe um outro ponto de vista que não foi abordado, e que a analogia ao mundo corporativo pode nos ajudar a entender melhor.
O que motivou a demissão do Dorival, pelo menos pelo que foi divulgado na mídia, foi justamente a insubornidação do próprio Dorival com a direção do Santos.
Apesar de eu, particularmente, ter a achado errônea a decisão de demitir o treinador, tentemos ver por um outro ângulo. O clube já estava mergulhado em polêmicas comportamentamentais, vide episódio da webcam, e outros episódios do Neymar.
Daí, ocorreu o jogo fatídico, no qual o jogador desreipeitou, técnico e o time como um todo. Foi feita uma reunião, envolvendo Dorival, comissão técnica, e diretoria, na qual ficou decidido
com o consenso, que o jogador seria suspenso por um jogo. Até então tudo bem. Na véspera do jogo contra o corintians, sem comunicar a ninguém, o treinador anuncia em coletiva que o jogador está barrado.
O que seria isso senão um caso gravíssimo de insubordinação? E isso estando o clube atolado na crise! Ele peitou uma decisão tomada em conjunto com a diretoria.
Imagine se o gerente da sua empresa, desobedece em rede nacional, uma decisão tomada em concenso com os diretores?? E isso com o nome de sua empresa estando mergulhadas em escândalos envolvendo o comportamento dos funcionários.
Se o lider do grupo, o treinador, que deveria ser o exemplo de respeito à hierarquia, tem uma atitude dessas, realmente virou bagunça.
Acho que o Dorival erro feio na questão.
Parabéns pelo post!
Abraço,
Oi Rafael e demais colegas. Já passou um bocado de tempo mas continuamos aprendendo. Eu acredito que há fatos nessa história que nós não sabemos porque após a punição do Neymar é que as coisas aconteceram. Fazendo um paralelo tb com o corporativo o Neymar recebeu uma espécie de carta branca (e vamos pro dicionário de novo), um espaço para ser gênio mas a estrutura do Santos é a da maioria das corporações: comando e controle. Regras e punições.
Eu trabalho com grupos há 14 anos. Continuo confiando e aprendendo em grupos como facilitador e como membro. Acho que com uma boa conversa, o grupo do Santos teria resolvido tudo e teriam aprendido muito juntos e…sem perder nada, porque do jeito q foi “resolvido”, todo mundo perdeu, podem examinar com cuidado. Todos perderam.
Abraços e parabéns por trazer o debate.
Diego, será que a decisão realmente foi em conjunto com a diretoria ou tentaram transparecer isso para a imprensa e esqueceram da vontade do treinador, aquele que tinha o grupo nas mãos?
Roberto, aprendizado em grupos muitas vezes gera atritos. Esses atritos não foram bem administrados, infelizmente.
Obrigado pela participação de vocês aqui no espaço.
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